Wednesday, July 3, 2019
BLANCHE DE BONNEVAL sobr MARIA ARCHER
QUINTA-FEIRA, 12 DE JULHO DE 2012
DONA MARIA ARCHER
Fico muito comovida em falar em Dona Maria, pois muito gostava da senhora e como já disse, foi um grande privilégio conhecê-la. Conversei com minha irmã mais velha, Maria Jorge a respeito,que me deu vários detalhes sobre ela e corrigiu também algumas memórias erradas
que tinha. Por exemplo, Dona Maria não veio morar conosco no final dos anos 50 como pensava, mas no começo dos anos 60, quando eu tinha por volta de 13 anos (nasci em 1949). Ea família toda se apegou muito a ela.
1. O que impressionava era a sua cultura e vivência e quando ela não estava connosco dando-nos educação, ela passava o dia conversando com o nosso velho tio Antonio de Almeida Correa, que era um tio solteiro, intelectual, que falava 8 línguas, estudara sânscrito na Sorbonne além de ter amealhado vários diplomas. O tio tinha uma cultura vastíssima e uma biblioteca excepcional e os dois estavam sempre falando de literatura e comentavam, entre outros, os livros dela. Ela até lhe deu de presente, a ele e aos meus pais, um conjunto dos seus livros com dedicatória, que infelizmente não sei para onde foram parar depois de nos termos mudado da Avenida Paulista 1804 para o Jardim América 31 em 1973.
2. Há também algumas lembranças pitorescas. Dona Maria tinha mãos de fada: colocava num grande saco todas as peças de vestuário que as pessoas da casa não queriam mais, como chapéus velhos da minha avó, roupas de minha mãe, bonés do meu tio, cortes ou pedaços de fazenda etc. Depois, recortava, pintava e costurava criando apliques maravilhosos que ela usava nas suas roupas. Lembro-me de apliques com rosas que ela costurou na minha jaqueta que eram lindos de tão bem feitos. Também costurava os seus próprios vestidos e estava sempre elegante. Aliás, não limitava esses dons apenas à suas roupas: também pintava e modificava as suas bolsas e seus sapatos e dava uma importância particular à suas sobrancelhas, que eram muito finas e que ela epilava e pintava com muito esmero.
Era portanto uma mulher industriosa, sempre ativa e faceira que passava o seu tempo livre em conversas intelectuais, freqüentava muito encontros políticos e literários em São Paulo, ocupava-se em escrever mas também fazer roupas e artefatos originais e muito bonitos para ela própria.
Havia um outro fato que nos divertia muito: Dona Maria era alérgica a queijo e isso era o motivo de grande divertimento para nós meninas, na hora das refeições. Invariavelmente quando a comida era servida, ela olhava para o copeiro e lhe perguntava se tinha queijo. Era claro que tanto eu quanto a minha irmã, morríamos de rir e era o olhar severo de nossa mãe que nos fazia parar, não querendo de jeito nenhum que ela se ofendesse com nossas risadas. Mas Dona Maria era a primeira a rir da sua eterna pergunta e das reações que causava.
Último detalhe pitoresco: ela sabia que tanto a minha irmã quanto eu detestávamos levantar de manhã. Então todo dia, lá vinha Dona Maria às 8 horas em ponto no quarto escuro, abrir as venezianas cantando modinhas portuguesas: “Abre a janela Maria que é dia” cantava ela, enquanto nos duas escondíamos o rosto no travesseiro tentando dormir mais um pouco.
3. Se ela nos falava muito de sua vida em Angola e Moçambique, ela não mencionava nomes de lugares, apenas fatos. E às vezes, falava-nos de sua família. Nunca esqueci aquela história que nos contou a respeito de uma das suas irmãs, que ficara loucamente apaixonada e fugira com um rapaz nadando para o mar aberto e desaparecendo da vista da família. Ficou-me o nome de Isabel... não sei se estou a confundir com outra coisa. Sempre nos falava de paisagens de praia e de cenas em Angola e Moçambique e dava para sentir o quanto sentia saudades destes dois países mais particularmente. Mas ela vira que eu era particularmente interessada no que ela falava a este respeito e então, não se privava de me falar sobre a Africa e as suas maravilhas. Eu tentava imaginar o que ela contava e ficava cada vez com mais vontade de ir a estes dois países, ver como eram, em Luanda por exemplo, a Ilha, o forte e a famosa ladeira dos enforcados.... Ela também me dava para estudar alguns parágrafos dos seus livros e euficava maravilhada com o que lia.
4. Dona Maria também tinha uma verdadeira paixão pela minha irmã mais nova, Claude, que nasceu em 1962. Não sei o que despertara nela este sentimento tão forte que divertia a todos na casa: ela passava parte do tempo livre dela passeando a minha irmã bêbê no carrinho pelo
jardim, falando com ela e esta correspondia com muitas risadas e gritinhos que a encantavam. Quando ela estava com essa irmã, nada mais importava e a atenção dela ficava focada naquela criança que ria para ela. .
5. Do ponto de vista educação, imagino agora o quanto deve ter sido desafiante para ela dar educação a duas meninas em casa naquela época. Várias vezes, eu a ouvi discutindo com minha mãe e dizendo-lhe que nada substituía a escola. Se não lembro bem do essencial dos cursos particulares que recebíamos das 9h30 até as 12 horas e das 14h30 até as 16 horas e 30, recordo-me perfeitamente que uma das tarefas finais era o relatório sobre plantas e animais. Assim devíamos fazer pesquisa nos dicionários e outros livros que tínhamos em casa e colocar sobre papel tudo o que conseguíamos descobrir sobre um animal ou uma planta. E este relatório devia ser apresentado a ela. Era muito divertido e até hoje me lembro disso.
6. Quando nova, eu gostava muito de poesia e até escrevia poemas. Quando ela descobriu isso, me deu o maior incentivo e graças aos contatos que tinha na mídia até conseguiu que alguns dos poemas da minha autoria dos quais mais gostava, fossem publicados com uma introdução dela muito bonita. Mas depois de sua partida, encantei-me com outras coisas e não me dediquei mais à poesia. Gosto todavia até hoje de escrever e estou no momento terminando as minhas memórias dos três postos que mais me ensinaram pela sua dificuldade que são o Chade onde passei 5 anos da minha vida, o Tadjikistão onde servi 4 anos e a Rússia onde servi 4 anos também.
7. Quando finalmente, por intervenção da minha avó paterna fomos autorizadas a ir para o colégio, os nossos caminhos se separaram um pouco. Mas Dona Maria, continuava a ser parte da família e vinha nos ver para almoçar em casa e conversar connosco. Lembro-me vagamente mais tarde, dela ter ido morar em Poços de Caldas, no estado de Minas Gerais e de eu ir visitá-la lá.
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