Friday, January 31, 2020

A MODERNIDADE DE MARIA ARCHER MM Aguiar - na apresentação do livro de Elisabeth Battista




A MODERNIDADE DE MARIA ARCHER

Maria Manuela Aguiar

O "Círculo Maria Archer" participa, juntamente com a AMM, numa primeira jornada de homenagem à Drª Rita Gomes, neste mês de outubro,  mês do seu nascimento,  em que, todos os anos, procuraremos lembra-la, de forma especial. Faz todo o sentido associa-la à evocação de Maria Emília Archer Eyrolles Baltazar Moreira, de quem era prima, com quem conviveu desde a infância, e a quem tanto admirava. Temos a certeza de que, se hoje estivesse entre nós, participaria, ativamente, com o maior entusiasmo, no lançamento deste Círculo  e, tal como outros membros da família, veria na sua expansão uma caminhada para o futuro em que as crenças e as causas, o nome e a memória de Maria Archer estarão sempre presentes.
Nos últimos anos da presidência de Rita Gomes na AMM, foram diversas as iniciativas focadas em Maria Archer. Gostaria de as recordar como acções que lhe foram, ou, se me permitem falar no plural, nos foram, especialmente gratas: uma primeira integrada no programa do "Encontro Mundial de Mulheres Portuguesas da Diáspora, em novembro de 2011, congresso em que se pretendeu reavaliar a realidade da emigração no feminino, traçando, por um lado, as linhas de evolução de mais de um século de êxodo migratório, com significativa componente feminina, e particular enfoque numa área em que Têm estado, pelo menos, tão atuantes como os homens: o domínio da cultura e do ensino da língua. Maria Archer foi,m então, homenageada, a par de Maria lamas, em intervenções do Reitor Salvato Trigo, da Drª Olga Archer Moreira, Drª Dina Botelho e ProFª Doutora Elisabeth Battista,
Voltou a ser figura central na comemoração do Dia Internacional da Mulher, em março de 2012, na Biblioteca José Marmelo e Silva, em Espinho, onde a principal oradora foi Olga Archer Moreira, sua sobrinha neta. O programa incluiu uma "entrevista imaginária" com a grande escritora e cidadã, representada  por jovens das Escolas da cidade, que deu ao evento um toque afetivo e pedagógico. A "entrevista imaginária" seria posteriormente encenada em diversas escolas, para levar a públicos jovens o exemplo de vida de uma grande Mulher de Letras, capaz, igualmente, de ação concreta.
Nesse ano, em Lisboa, no Teatro Nacional da Trindade, a força das suas convicções e ideais foi, novamente, saudada em sucessivas intervenções sobre o seu trajeto e a sua obra, por muitas pessoas que com ela conviveram de perto. como seu sobrinho dileto, o Prof. Fernando de Pádua,  Encerrou a sessão, prestando-lhe um vibrante tributo, o Presidente Mário Soares, símbolo da luta vitoriosa pelo Portugal em liberdade, em que ela se empenhou, de alma e coração..Os múltiplos contributos estão publicados, numa das mais belas edições da AMM, coordenada por Rita Gomes e Olga Archer Moreira. Em 2013, foi relembrada, numa apresentação das publicações da "Mulher Migrante", realizada no Palácio das Necessidades e, em 2014, a Associação organizou, juntamente com a Fundação Prof. Fernando de Pádua, um colóquio, a anteceder o lançamento da publicação de Elisabeth Battista ."O legado de uma escritora viajante". E tem permanecido, nos últimos anos na agenda da "Mulher Migrante" -  no Dia Internacional da Mulher, nos colóquios de Monção, (com  repetidas encenações da "Entrevista Imaginária", sempre protagonizadas por estudantes das Escolas locais), no Dia da Comunidade Luso-brasileira, desde 2017, tendo este ano sido o Círculo Maria Archer apresentado formalmente, no âmbito dessas comemorações.
Hoje, para o lançamento do último livro de Elisabeth Battista "Sem o direito de voltar a casa" Maria Archer - uma jornalista portuguesa no exílio", estamos  reunidos, na esplêndida da Casa da Beira Alta, nossa muito acolhedora anfitriã, na pessoa do seu presidente, Dr. Afonso Costa. É uma segunda  parceria da AMM e do “Círculo”, que, esperamos, se repita muitas vezes, na prossecução dos objetivos comuns, em torno da personalidade inspiradora de Maria Archer, cuja vasta e multifacetada obra convida a estudo e a debate e cujo exemplo de inconformismo  convoca à militância cidadã.
Temos entre nós a maior especialista no seu percurso literário, a Profª Elisabeth Battista que todos queremos ouvir quanto antes, pelo que direi agora apenas algumas breves palavras. Primeiramente para lhe agradecer a esplêndida oportunidade que oferece ao Círculo Maria Archer de dar o melhor dos inícios a um roteiro de reflexão e debates ao escolhe-lo para organizar, no Porto, a divulgação de mais um notável trabalho científico  sobre a insigne escritora, nomeadamente sobre o seu trilho jornalístico durante o exílio brasileiro, que. ao contrário dos seus livros (ainda que, na quase totalidade, esgotados), é praticamente desconhecido. A esse agradecimento juntamos um convite, que sabemos será aceite, para se tornar associada do Círculo, alargando o seu espaço às fronteiras do Brasil.
Limitar-me-ei, pois, a sumariar as principais razões que nos levam a fazer de Maria Archer uma companheira de jornadas, de diálogos sobre as temáticas de género, de valorização da vivência democrática, de defesa da Igualdade e aproximação dos povos, muito em particular os do universo da lusofonia. e suas Diasporas.
Da Diáspora Portuguesa e do mundo plural da Lusofonia ela é um nome maior, como intelectual, jornalista e romancista, e como precursora na observação e registo, em preciosos textos, sobre os usos e costumes das gentes com as quais, por largas décadas, tanto gostou de  conviver,  em Moçambique, na Guiné-Bissau, em Angola, (nos anos de juventude acompanhando os pais e, depois, o marido), e, já sexagenária, no solitário exílio brasileiro de mais de duas décadas. Mulher de imensa cultura e inteligência, sempre atenta ao que acontecia em seu redor, fora como dentro do próprio país, com inteira compreensão das pessoas, dos ambientes, dos meios sociais, traduziu a experiência vivida em inúmeros escritos de incomensurável valor literário e de enorme interesse etnológico, sociológico e político. Assim se converteu em testemunha rara, em memória crítica de um tempo português, opressivo e cinzento, pautado por preconceitos e discriminações, por regras de jogo viciadas, que ela pôs a nu, frontalmente, sem contemplações. e sem temor.  Ninguém, como ela, retratou o quotidiano desse Portugal do "Estado Novo", estagnado e anacrónico, avesso a qualquer forma de progresso social, em que as mulheres, em particular, se encontravam dominadas pela força das leis, pelo cerco das mentalidades, pela censura dos costumes, depois de terem sido deformadas pela educação, pela entronização rígida dos papéis de género dentro da famílias, numa sociedade fechada ao curso da História, que ia acontecendo na Europa e por esse mundo fora.
A mais feminista das escritoras portuguesas, nascida no último ano de oitocentos, era demasiado jovem para poder ter feito parte dos movimentos revolucionários e feministas do princípio do século XX, mas viria a ser uma das poucas  que, no período de declínio desses movimentos (com o desaparecimento de uma geração memorável), prosseguiu a seu jeito, incessante e solitariamente, a mesma luta  contra o obscurantismo, que condenava a metade feminina de Portugal à subserviência, ao enclaustramento doméstico e à incultura... A escrita foi  para ela uma arma de combate  político. Segundo Artur Portela, "a sua pena parece por vezes uma metralhadora de fogo rasante".  Mulher livre num país ainda sem liberdade, pagou pela coragem de ser assim um preço muito alto .Viu os seus livros, que atingiam, recordes de popularidade e de vendas,  apreendidos, os jornais onde trabalhava ameaçados de encerramento. Foi obrigada a partir, mas a sanha vingativa da Ditadura não se satisfez com o seu  desterro - ela foi "deliberadamente apagada da História", como escreve Maria Teresa Horta no prefácio da reedição de "Ela era apenas Mulher".
O Circulo Maria Archer surge, em pleno século XXI, para combater esse acto persecutório, consumado há décadas, Tem por assumida finalidade recolocar o  nome de Maria Archer no lugar vazio que é seu na história da nossa Literatura e do feminismo português, e, também, na história  do pioneirismo na construção de pontes entre as culturas lusófonas.  
Revisitar a obra desta Mulher de Letras, através da divulgação e do debate dos seus escritos, visa desocultar o passado, lançar luz sobre a realidade insuficientemente analisada e realçada da sociedade portuguesa de 40 e 50, e  fazer futuro com a modernidade do seu pensamento e das prioridades da sua luta cívica e cultural.
 O Circulo pretende, afinal, sobretudo,   assegurar uma segunda vida a Maria Archer, projecto perfeitamente possível,   porque, como dizia Pascoaes, existir não é pensar, é ser lembrado".
Neste projeto todos os  presentes estão convidados a participar!

Maria Manuela Aguiar
(Circulo Maria Archer e AMM)

Wednesday, July 3, 2019

BLANCHE DE BONNEVAL sobr MARIA ARCHER

QUINTA-FEIRA, 12 DE JULHO DE 2012 DONA MARIA ARCHER Fico muito comovida em falar em Dona Maria, pois muito gostava da senhora e como já disse, foi um grande privilégio conhecê-la. Conversei com minha irmã mais velha, Maria Jorge a respeito,que me deu vários detalhes sobre ela e corrigiu também algumas memórias erradas que tinha. Por exemplo, Dona Maria não veio morar conosco no final dos anos 50 como pensava, mas no começo dos anos 60, quando eu tinha por volta de 13 anos (nasci em 1949). Ea família toda se apegou muito a ela. 1. O que impressionava era a sua cultura e vivência e quando ela não estava connosco dando-nos educação, ela passava o dia conversando com o nosso velho tio Antonio de Almeida Correa, que era um tio solteiro, intelectual, que falava 8 línguas, estudara sânscrito na Sorbonne além de ter amealhado vários diplomas. O tio tinha uma cultura vastíssima e uma biblioteca excepcional e os dois estavam sempre falando de literatura e comentavam, entre outros, os livros dela. Ela até lhe deu de presente, a ele e aos meus pais, um conjunto dos seus livros com dedicatória, que infelizmente não sei para onde foram parar depois de nos termos mudado da Avenida Paulista 1804 para o Jardim América 31 em 1973. 2. Há também algumas lembranças pitorescas. Dona Maria tinha mãos de fada: colocava num grande saco todas as peças de vestuário que as pessoas da casa não queriam mais, como chapéus velhos da minha avó, roupas de minha mãe, bonés do meu tio, cortes ou pedaços de fazenda etc. Depois, recortava, pintava e costurava criando apliques maravilhosos que ela usava nas suas roupas. Lembro-me de apliques com rosas que ela costurou na minha jaqueta que eram lindos de tão bem feitos. Também costurava os seus próprios vestidos e estava sempre elegante. Aliás, não limitava esses dons apenas à suas roupas: também pintava e modificava as suas bolsas e seus sapatos e dava uma importância particular à suas sobrancelhas, que eram muito finas e que ela epilava e pintava com muito esmero. Era portanto uma mulher industriosa, sempre ativa e faceira que passava o seu tempo livre em conversas intelectuais, freqüentava muito encontros políticos e literários em São Paulo, ocupava-se em escrever mas também fazer roupas e artefatos originais e muito bonitos para ela própria. Havia um outro fato que nos divertia muito: Dona Maria era alérgica a queijo e isso era o motivo de grande divertimento para nós meninas, na hora das refeições. Invariavelmente quando a comida era servida, ela olhava para o copeiro e lhe perguntava se tinha queijo. Era claro que tanto eu quanto a minha irmã, morríamos de rir e era o olhar severo de nossa mãe que nos fazia parar, não querendo de jeito nenhum que ela se ofendesse com nossas risadas. Mas Dona Maria era a primeira a rir da sua eterna pergunta e das reações que causava. Último detalhe pitoresco: ela sabia que tanto a minha irmã quanto eu detestávamos levantar de manhã. Então todo dia, lá vinha Dona Maria às 8 horas em ponto no quarto escuro, abrir as venezianas cantando modinhas portuguesas: “Abre a janela Maria que é dia” cantava ela, enquanto nos duas escondíamos o rosto no travesseiro tentando dormir mais um pouco. 3. Se ela nos falava muito de sua vida em Angola e Moçambique, ela não mencionava nomes de lugares, apenas fatos. E às vezes, falava-nos de sua família. Nunca esqueci aquela história que nos contou a respeito de uma das suas irmãs, que ficara loucamente apaixonada e fugira com um rapaz nadando para o mar aberto e desaparecendo da vista da família. Ficou-me o nome de Isabel... não sei se estou a confundir com outra coisa. Sempre nos falava de paisagens de praia e de cenas em Angola e Moçambique e dava para sentir o quanto sentia saudades destes dois países mais particularmente. Mas ela vira que eu era particularmente interessada no que ela falava a este respeito e então, não se privava de me falar sobre a Africa e as suas maravilhas. Eu tentava imaginar o que ela contava e ficava cada vez com mais vontade de ir a estes dois países, ver como eram, em Luanda por exemplo, a Ilha, o forte e a famosa ladeira dos enforcados.... Ela também me dava para estudar alguns parágrafos dos seus livros e euficava maravilhada com o que lia. 4. Dona Maria também tinha uma verdadeira paixão pela minha irmã mais nova, Claude, que nasceu em 1962. Não sei o que despertara nela este sentimento tão forte que divertia a todos na casa: ela passava parte do tempo livre dela passeando a minha irmã bêbê no carrinho pelo jardim, falando com ela e esta correspondia com muitas risadas e gritinhos que a encantavam. Quando ela estava com essa irmã, nada mais importava e a atenção dela ficava focada naquela criança que ria para ela. . 5. Do ponto de vista educação, imagino agora o quanto deve ter sido desafiante para ela dar educação a duas meninas em casa naquela época. Várias vezes, eu a ouvi discutindo com minha mãe e dizendo-lhe que nada substituía a escola. Se não lembro bem do essencial dos cursos particulares que recebíamos das 9h30 até as 12 horas e das 14h30 até as 16 horas e 30, recordo-me perfeitamente que uma das tarefas finais era o relatório sobre plantas e animais. Assim devíamos fazer pesquisa nos dicionários e outros livros que tínhamos em casa e colocar sobre papel tudo o que conseguíamos descobrir sobre um animal ou uma planta. E este relatório devia ser apresentado a ela. Era muito divertido e até hoje me lembro disso. 6. Quando nova, eu gostava muito de poesia e até escrevia poemas. Quando ela descobriu isso, me deu o maior incentivo e graças aos contatos que tinha na mídia até conseguiu que alguns dos poemas da minha autoria dos quais mais gostava, fossem publicados com uma introdução dela muito bonita. Mas depois de sua partida, encantei-me com outras coisas e não me dediquei mais à poesia. Gosto todavia até hoje de escrever e estou no momento terminando as minhas memórias dos três postos que mais me ensinaram pela sua dificuldade que são o Chade onde passei 5 anos da minha vida, o Tadjikistão onde servi 4 anos e a Rússia onde servi 4 anos também. 7. Quando finalmente, por intervenção da minha avó paterna fomos autorizadas a ir para o colégio, os nossos caminhos se separaram um pouco. Mas Dona Maria, continuava a ser parte da família e vinha nos ver para almoçar em casa e conversar connosco. Lembro-me vagamente mais tarde, dela ter ido morar em Poços de Caldas, no estado de Minas Gerais e de eu ir visitá-la lá.

MARIA JORGE DE BONNEVAL sobre MARIA ARCHER julho 1912

QUINTA-FEIRA, 12 DE JULHO DE 2012 Eu sou Maria Jorge de Bonneval a outra das "duas meninas" de Dona Maria Archer. Não tenho muito a acrescentar ao depoimento de minha irmã Blanche pois juntamos nossas lembranças para ela poder elaborá-lo. Mas não quero deixar de compartilhar do "ressurgimento" de D Maria como era chamada por todos nos. Ela foi nossa preceptora e uma pessoa inesquecível até para meninas de 12 e 13 anos. Me lembro dela alegre, divertida e amorosa. Muito faceira sempre arrumada e bem vestida. Era muito hábil com suas mãos e transformava qualquer coisa em algo bonito e útil. Isto nos deixava maravilhadas! Contava-nos histórias fascinantes da África e Portugal. Falava-nos de um Portugal e de uma África mágicos que só existia ainda em suas lembranças e assim contagiava-nos com seu saudosismo da "terrinha natal". Tanto minha irmã quando esteve em África quanto eu em Portugal lembramos de D Maria e do que havia nos contado. Lembro que tinha posições políticas muito firmes contra a ditadura e nos dizia que "comeria o coração de Salazar".( Como assim??? as duas meninas imaginaram a cena ao pé da letra!!!) Também de sua vida em África nos falava da importância da liberdade de pensamento,de ação e sexual para as mulheres. A este respeito lembro de minha mãe (uma pessoa muito tradicional, pouco aberta a qualquer tipo de discussão) repreendendo-a. Mas hoje, voltando a aquele tempo percebo que D Maria tinha razão. Ela estava muito a frente do seu tempo e por isso perseguida e incompreendida. Tanto minha irmã quanto eu, quando lembramos de Dona Maria sorrimos.

DE S PAULO NOTÍCIAS DE MARIA ARCHER - a FAMÍLIA DE BONNEVAL

De: Data: 3 de Julho de 2012 02:51 Assunto: Dona Maria Archer Para: mariamanuelaaguiar@gmail.com Prezada senhora Boa noite, meu nome é Blanche de Bonneval e quero lhe falar um pouco de Maria Archer no Brasil. Minha irmã mais velha e eu éramos garotinhas (nascidas respectivamente em 1948 e 1949) quando a minha família, que era muito tradicional, pediu a Maria Archer de ser a nossa preceptora no Brasil nos anos 50/começos dos anos 60 se não me engano, pois queria que fossemos educadas em casa. Dona Maria, como nos a chamávamos, veio morar connosco e se esforçou muito em nos dar uma boa educação. Ela era considerada em casa como uma pessoa cultíssima, alegre e original que foi muito apreciada por todos. Lembro-me por exemplo como ela me incentivou quando comecei a escrever poesias algumas das quais chegaram a ser publicadas graças a seu empenho.Também me recordo com certa emoção e divertimento o seu hábito de pintar suas roupas, bolsas e sapatos e de nos acordar de manhã abrindo a janela cantando canções portuguesas cujos refrões ainda lembro. Ela ficou connosco alguns anos até que a família do meu pai conversou com minha mãe e em 1965 fomos autorizadas finalmente a irmos para o colégio. Mas mesmo assim, como tínhamos muita amizade com Dona Maria, ficamos em contato com ela até ela voltar para Portugal. Creio que devo muito a ela. Ela sempre nos contava histórias africanas e nos falava da magia dos lugares onde vivera como Angola e Moçambique, pois foi sempre destes dois lugares que ela falava mais. Comecei a ficar curiosa e a querer ir conhecer a Africa, ou pelo menos esses dois países dos quais ela falava com tamanha emoção. Acabei saindo do Brasil em 1976 para ir estudar na França onde fiz mestrado e doutoramento. Em 1982 - ano da morte de Maria Archer - (soube agora por um artigo que achei no computador por acaso que ela veio a óbito neste ano) comecei a trabalhar no sistema das Nações Unidas - mais especificamente no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento - o PNUD - . O meu primeiro primeiro posto foi Angola, que nesta altura estava em plena guerra civil e para onde ninguém queria ir. Lembrando sempre do que Maria Archer me falara daquele país, aceitei o desafio e lá vivi uma experiência de vida maravilhosa. Depois de algum tempo de estadia, pedi aos meus amigos angolanos se lembravam de Maria Archer e responderam positivamente. Falaram-me dela com carinho e me levaram até na casa onde ela havia morado, localizada perto do hospital de Luanda. Mais tarde em 1992 o PNUD me propos ir para Moçambique que também aceitei pelas mesmas razões e foi novamente um posto do qual gostei demais. Só que lá não achei rastros de Dona Maria. As pessoas lembravam do seu nome mas não sabiam onde vivera no país. E só é agora que descubro no mesmo artigo que ela viveu na Ilha de Moçambique e no Ibo e não na atual Maputo como eu acreditava. Foi graças a influência da minha preceptora que trabalhei em Angola e Moçambique, mas também em Madagascar e no Chade, o que representou um aprendizado extraordinário que durou 16 anos no total. Depois disso, fui enviada para Asia Central onde trabalhei até minha aposentadoria. Bem, é só isso de que queria lhe falar, disso e das minhas profundas gratidão e admiração por esta mulher pelo que ela foi assim como pela influência que teve na minha vida. Atenciosamente. Blanche Cara Doutora Blanche: Foi com imensa satisfação que recebi o email, que acabo de ler. Vou dar essa informação, de imediato, a investigadores e a familiares de Maria Archer. Eu sou uma admiradora da sua obra e da sua personalidade. e, nos últimos meses, consegui reunir mais de uma vintena dos seus livros em alfarrabistas, (apenas dois romances foram recentemente reeditados). Considero-a uma grande escritora, perfeita retratista da mulher portuguesa do seu tempo! Uma associação a que pertenço (Mulher Migrante - Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade) organizou já várias sessões de homenagem a Maria Archer, a última das quais no Teatro da Trindade em Lisboa, com a presença do antigo Presidente da República Dr Mário Soares. Em breve será editada uma acta dessa sessão, que poderei enviar-lhe, com todo o gosto. Há uma tese de mestrado sobre Maria Archer em Portugal e uma outra de doutoramento no Brasil (da Profª Elisabete Battista, que apresentou a sua tese na USP). Espero que outras se sigam no futuro. A vida de Maria Archer em Portugal está bem documentada e há ainda muitos amigos e familiares que privaram com ela, mas o período em que residiu no Brasil é praticamente desconhecido, para além dos escritos que deixou. Por isso, o testemunho que nos dá, e outros que possa acrescentar, são verdadeiramente preciosos! Como eu gostaria de ter conhecido Maria Archer... Com muito apreço, as saudações da Maria Manuela Aguiar No dia 7 de Julho de 2012 00:27, Maria Manuela Aguiar ;mariamanuelaaguiar@gmail.com> escreveu: ---------- Mensagem encaminhada ---------- De:

MÁRIO SOARES . encerramento do colóquio no Teatro da Trindade

DOUTOR MÁRIO SOARES




 Quero cumprimentar a Dra. Manuela Aguiar e dizer-lhe que ouvi, com muito agrado, a sua intervenção. Como sempre, falou muito bem. Quero também cumprimentar o Prof. Doutor Fernando Pádua que é sobrinho de Maria Archer, cuja ligação familiar eu desconhecia. Só dela tive conhecimento quando o Professor Pádua teve a gentileza de me enviar uma carta informando-me da realização desta homenagem e convidando-me a estar presente. Respondi, de imediato, afirmativamente, dada a admiração que sempre senti por Maria Archer, bem como a amizade e o respeito que o Prof. Fernando Pádua me merece. Quero saudar ainda o meu amigo angolano e português, Vítor Ramalho, presidente do INATEL, que nos cedeu esta sala e o meu amigo e ex-Presidente da Câmara Municipal de Espinho, José Mota, bem como todos os presentes. Minhas senhoras e meus senhores Em primeiro lugar, devo dizer-lhes, que conheci, efectivamente, Maria Archer entre 1945/50. Era então bastante jovem, estudante ainda da Faculdade de Letras. Foi um grande intelectual e um homem de esquerda, muito ilustre, Fernando Piteira Santos, que tinha relações próximas com Maria Archer, quem nos apresentou. Certo dia, Piteira Santos questionou-me sobre se eu a quereria conhecer. E logo, nesse momento, me afirmou que ela era, uma mulher muito bonita, além de ser uma grande escritora. Acedi e foi assim que se estabeleceu o meu primeiro contacto com Maria Archer. Nesse primeiro encontro tive conhecimento que Maria Archer já tinha publicado um conjunto de livros. Naturalmente, depois de a ter conhecido fui em busca dos seus livros e comprei os que encontrei e alguns li-os. Não fiquei desiludido. Bem pelo contrário. Maria Archer foi uma grande escritora e uma grande jornalista, muito admirada nos meios intelectuais. Centrou a sua actuação, primordialmente, em duas direcções: a África, que conheceu muito bem desde jovem e a situação da mulher. Realmente, viveu os seus primeiros catorze anos em África, nomeadamente, em Angola, na Guiné e em Moçambique. Desconheço as razões que a levaram até esse continente mas, presumo, que seriam de ordem familiar, para acompanhar o seu Pai. Na verdade, conheceu muito bem esses países, então antigas colónias portuguesas. As suas floras, as suas faunas - e obviamente as pessoas - eram, para Maria Archer, um enigma desvendado. Conheceu a África, de expressão portuguesa como pouca gente. Maria Archer tem uma extensa bibliografia sobre África quer em jornais, quer em livros. E, se atentarmos à época em que ela escreveu, é ainda mais extraordinário. Nessa altura, ninguém ou muito poucos portugueses, nos meios literários, pensava em África. Não existiam ainda movimentos de descolonização, como anos mais tarde se verificou. África era um continente desconhecido para a maioria esmagadora dos portugueses. Maria Archer teve o grande mérito de nos desvendar os países de expressão portuguesa, na altura colónias, os seus hábitos, as suas gentes, as suas vidas. A outra direcção do seu trabalho de escritora centrou-se na situação da mulher. Maria Archer foi sempre uma partidária da igualdade entre a mulher e o homem. Escreveu livros verdadeiramente admiráveis. Por exemplo, este que aqui tenho: “Nada lhe será perdoado”, que é uma edição recente, tem um título deveras sugestivo. Nesta obra, a condição da mulher é descrita de forma veemente e esclarecedora. Nos anos em que a narrativa decorre as mulheres eram submetidas a grandes pressões. Lembremo-nos que, por exemplo, as mulheres casadas não podiam sair de Portugal, sem a autorização do marido, não podiam fazer nada sem a autorização do marido. Os livros desta escritora tão inteligente e bem parecida, representam, e isso é importante para o futuro, uma época em que a mulher era muito diferente e desigual em relação ao homem. As mulheres que ousavam ser diferentes, eram muito mal vistas pela sociedade de então. As mulheres ficavam no lar e, na maior parte dos casos, não tinham profissão. Maria Archer foi uma jornalista conhecida e muito estimada que vivia do seu próprio trabalho e escreveu os “Cadernos Coloniais”, que tão bem retratavam a África daquele tempo. Esta escritora e jornalista, conheceu bem Henrique Galvão, também ele, um grande escritor sobre África. Noutra perspectiva. Foi um interessado e conhecido caçador de feras. Mais tarde Henrique Galvão lutou contra a ditadura, depois de ter sido salazarista convicto e o responsável no tempo da Exposição Colonial. Mas o fim da II Guerra Mundial converteu-o à democracia. Ao contrário de Maria Archer que, como disse, nunca foi salazarista. Como Maria Archer, também Henrique Galvão se refugiou no Brasil, onde faleceu, com alzheimer. Sei isso porque o visitei em São Paulo, no Brasil, em 1969. Devo confessar-vos, que fiquei deslumbrado com Maria Archer, aliás o Piteira Santos tinha-me avisado: ela era efectivamente uma mulher muito atraente, embora com uma grande diferença de idade em relação a mim. Era insinuante, faladora, sempre à vontade. Uma pessoa muito peculiar e interessante sobre todos os aspectos. Nos poucos contactos que com ela tive - e os livros dela que li com muito agrado - percebi a força das suas convicções e o indiscutível conhecimento de vida e a inteligência que dela emanavam. Aliás, foi com grande espanto que a vi partir para o Brasil. Partiu, ao que me disseram então, porque lhe era impossível continuar a viver em Portugal. Foi para o Brasil numa altura má para ela. Viveu poucos anos em democracia, por vir logo a ditadura militar no Brasil. Voltou, muitos anos depois, logo a seguir ao 25 de Abril. Vivia-se então um período difícil, em que se lutou por implantar uma democracia pluralista e civilista, em Portugal. Dados os problemas e dificuldades que vivi nessa altura, nem sequer soube do regresso de Maia Archer. Aliás nunca mais soube dela. Nem sequer do seu falecimento tive notícia. Lembro-me, por exemplo, de outro grande escritor, que viveu muito tempo na América do Norte, José Rodrigues Miguéis, cujo principal - e admirável - romance se intitula “O Milagre segundo Salomé”, um romance escrito ao longo de 12 anos e que foi publicado em Portugal durante o PREC, justamente no ano de 1975, o período mais agudo e difícil da Revolução Portuguesa. Nessa altura, desloquei-me à América, onde fui a uma Universidade, proferir uma conferência. Encontrei-me então com um professor açoriano que me informou que a Biblioteca da Universidade era detentora de todos os papéis de José Rodrigues Miguéis. Convidou-me a ler algumas cartas e desabafos dele. Assim o fiz. Deparei com um diário onde José Rodrigues Miguéis escreveu, a dada altura: “Hoje, finalmente, terminei o meu livro. Vou enviá-lo para Portugal para os meus amigos. Vamos ver o que eles me dizem”. Quinze dias após esta anotação surge uma outra em que o escritor comenta: “Passaram 15 dias. Os meus amigos nada disseram sobre o meu livro”. Mais à frente encontrei outra nota: “Passaram mais 15 dias e ninguém me diz nada, ninguém faz uma referência ao meu livro”. Vivia-se, então, uma altura muito crítica da Revolução e, na realidade, as pessoas estavam todas muito preocupadas e não davam atenção aos livros que iam aparecendo nos escaparates. José Rodrigues Miguéis ficou muito ferido com esta indiferença perante a sua obra e nunca conseguiu perceber o que se passava. Tal como José Rodrigues Miguéis, naquela altura, Maria Archer foi, também, no seu isolamento, vítima das circunstâncias vividas, em Portugal... Recordo uma sua contemporânea, ilustre escritora, Irene Lisboa, que estava ao seu nível, bem como, mais tarde, Natália Correia e Sofia de Mello Breyner, também excepcionais escritoras e poetisas. Hoje, felizmente, e ao contrário da época em que Maria Archer se afirmou, há muitas mulheres escritoras e excelentes. Refiro isto porque acho que é muito importante que as mulheres escrevam e, digam o que verdadeiramente pensam. Para que este mundo - e sobretudo a nossa Pátria - venha a ser melhor.

ELISABETH BATTISTA no Teatro da Trindade

Literatura e Solidariedade – um estudo de Brasil, Fronteira da África, de Maria Archer Elisabeth Battista1 Em meados do século passado a circulação literária entre Brasil e África, continente que tanto mexeu com a imaginação de leitores, era praticamente inexistente. Tendo inaugurado seu destino viajante por terras africanas em 1910, com apenas dez anos de idade, a escritora lusitana Maria Archer lançou em 1957, durante o seu exílio no Brasil, na capital de São Paulo, a obra Brasil Fronteira da África, dedicado ao público-leitor brasileiro e sul-americano. No horizonte do nosso interesse está a busca por compreender como a captação da alma de um povo se materializa na obra da escritora, assim como, naquela altura, em que poucos falavam sobre a África no Brasil, Maria Archer contribuiu para o estímulo ao diálogo entre as literaturas brasileira e africana. A escritora e jornalista Maria Archer, nome marcante da vida e cultura portuguesas, viveu também em Angola, Guiné-Bissau, Niassa, Luanda e, a partir de 1955, no Brasil. Sua presença, também, era regular em jornais e revistas, aliás, muitos de seus textos de temática africana aparecem inicialmente na imprensa periódica lusitana. Esse detalhe da biografia de Maria Archer ajudará a compreender a sua vasta bibliografia de temática colonial publicada ora em livros, ora em periódicos, ora, ainda, em revistas especializadas como: O Mundo Português, Portugal Colonial e Ultramar. Assim, a consolidação de sua atividade como escritora e jornalista de matérias coloniais foi fruto do interesse de uma época em que viu reunidas as condições necessárias à produção e ao consumo desse gênero de literatura. O repertório da autora, entretanto, não se reduz aos textos laborados para os Cadernos Coloniais, como classificam alguns seguimentos da crítica, no sistema literário e sócio-histórico cultural, dado que se segue uma vida de intensa produção literária e intelectual ainda pouco exploradas. É, não obstante, em 1944 que produz o primeiro e seu mais importante romance Ela é Apenas Mulher2, obra decididamente escandalosa para a moral da época. Não só pelo tema que continua atual no que diz respeito à condição feminina, mas porque, como mulher, encontrou a forma adequada para abordar o assunto a que se propunha: o domínio da palavra. Há, contudo, um período enigmático em sua vida: o período em que a escritora foi em exílio para o Brasil, nos anos de Salazar e essa é uma das razões que nos inclinam a nos deter também no corpus estabelecido para este trabalho. Partimos de um diversificado painel de pontos de interesses aparentemente divergentes, no conjunto da produção literária da autora nos países de língua portuguesa, cujas obras transcendem as fronteiras nacionais e étnicas –África/Portugal/Brasil –, podendo encontrar um farto repertório temático à disposição dos leitores, consubstanciado na maior riqueza de gêneros, desde livros infantis, novelas de cunho sentimental, romances, ensaios, crônicas, relatos de viagens, até teatro e traduções. Com base em sua vivência e conhecimento sobre a África, Maria Archer, na época em que esteve radicada no Brasil, publicou: Terras Onde se Fala Português (1957), prefaciada por Júlio Gouveia3, diz “embora sejam nele apenas convidados os jovens à sua leitura, os adultos também podem aproveitar, se a viagem começa como um conto de carochinha e acaba como uma aventura fantástica”. Um roteiro ensaístico e descritivo, onde apresenta um estudo dos aspectos geográficos, étnicos, históricos e culturais dos territórios africanos que tem o português como língua de comunicação; Os Últimos Dias do Fascismo Português (1959), da editora Liberdade e Cultura. A 1ª edição publicada em 1959 foi de três mil exemplares e a sua reedição, que parece não ter contado com o consentimento da autora, ter-se-á destinado (Archer, 1972, p.3)4, “para a contribuição dos comunistas para não sei que movimento, aí em Portugal”. São apontamentos tomados durante as audiências do julgamento do Capitão Henrique Galvão, conforme memórias do processo político, julgado no 1º Tribunal Militar Territorial, (Santa Clara) em Lisboa, em Dezembro de 1952; África Sem Luz (1962), coletânea de contos e narrativas africanas densas de mistérios e sortilégios na qual nos dá conta de um mundo poderoso e ingênuo, forte e primitivo; Brasil, Fronteira da África (1963), em que apresenta aos brasileiros a África de expressão portuguesa, sobretudo Angola em guerra pela independência do colonialismo salazarista; conclama ao Brasil para que assuma o papel de “paladino” da Língua Portuguesa, comum aos três países e impeça o seu aniquilamento como também da cultura portuguesa em Angola. Um olhar sobre a temática deste livro, estruturado em seis capítulos, verifica-se a apresentação da condição sócio-político-cultural do povo angolano em conflito. Apresentou com base em dados históricos, a outra face do processo de colonização. A partir da vivência da guerra, a produtora textual descortinou o panorama de um movimento bélico que ceifou mais de uma centena de milhar de vidas. A escritora e jornalista portuguesa Maria Archer inseriu na pauta do público leitor algumas reflexões sobre a resistência da África atlântica que se expressa em idioma fraterno, como atesta o prefácio: O título deste livro é um brado, uma chamada. “Brasil, fronteira da África” foi publicado para lembrar aos brasileiros essa África que existe, muralhada no mistério e nas distâncias, esplendente nos longes onde nasce o sol, além, na outra margem do mare nostrum Atlântico, de olhos voltados para o Brasil. (p.5) Trago à presença dos brasileiros, só e somente, a terra e gentes de Angola. Da África de expressão portuguesa é ela a colônia mais ensangüentada e dorida. As suas gentes, em guerra contra o colonialismo salazarista, consideram o Brasil um paradigma de liberdade, uma polarização sócio-política que as fascina. E o Brasil ignora-as. (…) O meu livro pretende ser a ponte que aproxima os povos das margens do Atlântico irmanados pelo sangue bantu. Guardei nele imagens em vias de se diluírem na efervescência dos dias de hoje. (p.7) A obra coloca-se como um esforço no sentido de dar visibilidade à condição dos países africanos de que tem o Português como língua de comunicação, e um lança o apelo ao Brasil, à manutenção da coesão social, pela solidariedade e a força unificadora da Língua Portuguesa. A imagem da aproximação das margens do Atlântico é muito rica e fornece campo à reflexão e o estabelecimento de paralelos entre África e o Brasil, do ponto de vista linguístico, dos seus espaços socioculturais, da captação das dinâmicas do universo cultural, de seus imaginários levando-os para a reflexão acerca que o teorizou o crítico brasileiro Benjamin Abdala Jr.5, acerca do “comparatismo da solidariedade”. O código enunciativo da obra que se coloca como uma contribuição literária e um documento histórico, revela que as circunstâncias do exílio impuseram à escritora viajante e viajada a redefinição e a reconstrução de um conceito de identidade, entre os países que se comunicam através da língua portuguesa. Na nova visada, ainda que o vínculo com o projeto estético do passado pudesse ser mais ou menos mantido, a revisão de valores foi inevitável, num processo de reorientação dos rumos de sua produção criativa, substancialmente, no âmbito do seu eixo temático estilístico, que agora volta-se, com intenso interesse, para a resistência ao regime político vigente em Portugal. A nova postura adotada, pensada e vivida por Maria Archer, pode ser pressentida no teor anticolonialista logo no prefácio da obra, onde apela à mobilização dos países e a solidariedade entre as nações, fundada na íntima conexão dos seus destinos. A construção da simpatia e solidariedade pelos temas da África, expressa na sua escritura, constrói-se desde a sua primeira viagem à África, conforme obra publicada no Brasil, em 1963, onde narra a experiência, na qual se foi formando a atitude de afeição à aquele continente: No 1º quartel deste século, era eu menina, meu pai foi colocado na agência de um banco em Moçambique. Daí derivou a minha odisséia de africanista. Indo e vindo, passando uns tempos em Portugal e outros em África, foram-se quatorze anos da minha vida na terra tropical, que só reencontrei no Brasil. (p.121) Pouco a pouco, a experiência compartilhada entre os mundos em que viveu, levou a escritora e jornalista ao encontro de uma maneira de pensar que tendia a desconstruir os paradigmas do conhecimento ocidental, num mundo crescente marcado pela visão anti-colonialista. A crítica tem apontado essa condição de uma forma particular de exílio vivida por muitos intelectuais contemporâneos, geradora de um pensamento que se esforça por articular mundos e universos culturais diferentes. Na outra margem do Atlântico, Maria Archer, na intenção de manifestar o seu descontentamento diante de posições, atitudes e posturas políticas que julgava incorretas, escreveu para alguns jornais, nomeadamente O ESP, Semanário e Portugal Democrático. Nas duas décadas que no Brasil viveu produziu artigos que contribuíram vivamente para a composição do movimento de resistência ao regime conservador e autoritário vigente em Portugal. Nasce dessa iniciativa conjunta com vários exilados portugueses o periódico Portugal Democrático (1955-1974), que pretendia divulgar a situação que se vivia em Portugal, e seria a concretização da aspiração de se constituir como grupo de anti-salazaristas, a partir do exílio. Neste sentido, o olhar sobre a contribuição de Maria Archer para a imprensa de Língua Portuguesa durante o período de exílio, além de levar-nos ao encontro com as obras acima referenciadas colocou-nos frente a um sem número de colaborações que a autora endereçou às publicações em jornais, sendo delas o conjunto mais representativo aquele que produziu para o jornal OESP (1955-1957). Evidencia-se, portanto que a vida literária corria paralela à sua atuação no jornalismo. Deste modo, ao entrar em contato vida e a obra desta mulher exuberante, autodidata, viajante e viajada, uma representante da literatura escrita por mulheres, deparei-me com um fato curioso que corroborou ainda mais a minha reflexão: O fato de, tendo ela nascido no limiar do século XX, e tendo contatado direta ou indiretamente com as correntes de pensamento que influenciaram, ou afetaram de forma intensa o ambiente político cultural português até meados dos anos cinquenta do século passado, e ser, não obstante, pouco estudada pela historiografia literária da Literatura Portuguesa. Sem enveredar pelos meandros da reflexão sobre o percurso oneroso da mulher que se quisesse escritora na primeira metade do século XX, reporto-me, a um registro feito por uma das mentes mais conservadoras e carismáticas do Século XX, peço licença para expor alguns excertos da Carta às mulheres, do Papa João Paulo II. Carta às mulheres – Papa João Paulo II 6 Infelizmente, somos herdeiros de uma história com imensos condicionalismos que, em todos os tempos e latitudes, tornaram difícil o caminho da mulher, ignorada na sua dignidade, deturpada nas suas prerrogativas, não raro marginalizada e, até mesmo, reduzida à escravidão. Isto impediu-a de ser profundamente ela mesma e empobreceu a humanidade inteira de autênticas riquezas espirituais. […] Assim, o meu “obrigado” às mulheres, converte-se num premente apelo a que, da parte de todos, particularmente do Estado e das Instituições Internacionais, se faça o que for preciso para devolver à mulher o pleno respeito da sua dignidade e do seu papel. […] Não posso deixar de manifestar a minha admiração pelas mulheres de boa vontade que se dedicaram a defender a dignidade da condição feminina, através da conquista de direitos fundamentais sociais, econômicos e políticos, e assumiram corajosamente tais iniciativas em épocas em que este seu empenho era considerado um acto de transgressão, um sinal de falta de feminilidade, uma manifestação de exibicionismo, e talvez, um pecado” Este evento7 pode ser traduzido também, como um tributo de gratidão e reconhecimento e vem, até certo ponto, colmatar uma falha que pesa sobre o nome da autora, e não merece ser deixada ao abandono dos investigadores, tanto mais que é amplamente reconhecida pelo público-leitor. 7 Vida e Obra de Maria Archer – Uma Mulher da Diáspora foi uma iniciativa da Associação Mulher Migrante, em parceria com a Fundação INATEL, A Câmara Municipal de Espinho e a Fundação Professor Fernando de Pádua e realizado em 29 de Março de 2012, quinta-feira, no Teatro da Trindade – Salão Nobre– em Lisboa

LEONOR FONSECA no Teatro da Trindade

Imagine-se que alguém, nascido ainda no século XIX, termina a quarta classe por iniciativa própria, aos 16 anos. Esse alguém imaginário casa aos 22 anos, separando-se ao fim de dez. Faz das letras a sua vida, colaborando com jornais e editando obra própria, o que lhe custa não só a relação com a família – fruto de pinceladas autobiográficas vertidas para um romance Os Aristocratas – como perseguições políticas, nomeadamente após declarar a intenção de escrever um livro sobre Henrique Galvão e também por lhe terem sido apreendidas obras pela PIDE (a saber, Ida e volta de uma caixa de cigarros e Casa sem pão). Esta personagem imaginária parte para o Brasil em 55 e aí mantém a veia literária, editando e colaborando de novo com a imprensa. Regressará a Portugal em 79, já doente, vindo a falecer em 1982, em Lisboa. Novelista, contista, romancista, jornalista, cidadão na verdadeira acepção da palavra – pois afirmou inequivocamente a sua oposição ao regime de Salazar -, escritora de literatura de viagens, de livros infantis, de ensaios sobre usos e costumes africanos, a tudo isto se soma ainda a nobilíssima missão de retratar - e defender - a condição da mulher portuguesa ao longo do século XX. Comecei por vos falar em imaginar. Pensar uma personagem. Talvez porque, remetendo-nos nós para inícios de 1900’s, dificilmente poderíamos imaginar a materialização de uma mulher assim. Existiram, é um facto: Olinda da Conceição, Margarida Marques, Ana de Castro Osório, Carolina Beatriz Ângelo. Mas eram poucas, e menos ainda as que tinham tão particular vivência, errância e que, mesmo assim, não perderam o seu norte, as suas convicções, não soçobraram ao machismo vigente. Maria Archer é pois a nossa personagem imaginária. Ela é apenas uma mulher, dir-se-á – e a própria disse-o, dando a essa frase o título de uma das suas obras. Mas uma mulher maior porque, na grandeza das suas atitudes, se efabulou para todas e todos nós. Alcançou o justo lugar de exemplo, apenas por viver. Mas viver plenamente, activamente, numa altura em que viver, para uma mulher, era sinónimo de submissão. Maria Archer abdicou do conforto, da riqueza, para ser livre, criativa, participante. É pois, para mim, uma personagem imaginária. Real, mas imaginária. Porque é nesse lugar que guardo as pessoas capazes das coisas impossíveis

OLGA ARCHER MOREIRA no Teatro da Trindade- Vida e obra de Maria Archer

OLGA ARCHER MOREIRA - VIDA E OBRA DE MARIA ARCHER



 Uma Mulher da Diáspora 29 de Março de 2015 - Apresento, por uma questão de justiça, alguns agradecimentos. Registo os agradecimentos institucionais ao Museu Ferreira de Castro e à Fundação António Quadros e, pessoais, ao Professor Doutor Carlos Mendes Sousa, à Professora Doutora Clara Rocha, filha do escritor Miguel Torga, ao Dr. Pacheco Pereira e à Dra. Teresa Martins por me iluminarem os mil rostos de Maria Archer. E, por fim, apresento os agradecimentos à «Associação Mulher Migrante» na pessoa da Sra. Dra. Manuela Aguiar, pelas homenagens a Maria Archer já realizadas na Maia e em Espinho e, claro está, por esta, que hoje, está a ser prestada. Foi com muito prazer que aceitei vir falar sobre a minha tia-avó. Não podia vir falar-vos da saudade que a minha idade e a diáspora não deixaram nascer. Mas a honra, sim, sinto-a e está presente. Nas matizadas pesquisas que fiz sobre a minha tia-avó, encontrei, com mágoa, a referência a que tinha morrido no esquecimento. Ainda hoje, vários estudiosos me mencionam esse facto indelével. As suas obras de inegável valor foram olvidadas e, pairou sobre a sua pessoa e os seus testemunhos, o silêncio. Morreu no esquecimento, mas não foi nem será esquecida. Mas é verdade. Uma mulher da dimensão de Maria Archer não podia ter morrido, oito anos depois do 25 de Abril. Merecia que um país já em plena democracia lhe manifestasse um maior reconhecimento. Apraz-me relembrar uma frase que Maria Archer proferiu em relação à polémica que o seu livro “Ela é apenas Mulher” suscitou: “Confio na justiça do Tempo”. Abrem-se os portões e encontramos uma mulher da diáspora que ousou afrontar os “costumes” organizados de então. Mulher de acção pela palavra, pela escrita. Escritora, jornalista, conferencista, tradutora. Mulher autodidacta terminou apenas, oficialmente, a 4.ª classe, mas é senhora de uma cultura exuberante. Mulher viajada. Rasgou horizontes. Gilberto Freyre lavrou na Introdução do livro Herança Lusíada: “pouco falta às páginas da talentosa escritora portuguesa para serem ensaio de luso-tropicalismo de todo consciente da unidade na diversidade que parece dar à simbiose luso-trópico definido carácter de área susceptível de ser considerada e estudada sociologicamente…. Para tais estudos o livro da Sra. Maria Archer representa decerto valiosa contribuição.” Os seus livros são fruto da ousadia e da coragem que a caracterizam. Estão frequentemente ligados a problemas sociais e às questões da condição feminina. E, como recompensa, sofreu o isolamento e a discriminação da sociedade da época. Relembremos o que escreveu Maria Archer, em Parques Infantis, nos idos anos de 1943 “…Não é demais pôr em relevo a figura da criadora dos Parques Infantis, a grande poetisa Fernanda de Castro, que concebeu uma obra social limada de asperezas, que soube amparar as crianças com a mesma alma em flôr com que escreveu os seus versos.” Em 1944 é lançado o seu romance Ela é Apenas Mulher que, segundo Maria Teresa Horta afirma no prefácio à reedição de 2001, “Na altura em que surgiu, foi uma autêntica pedrada no charco. Escrevendo, afinal, aquele que hoje é um dos melhores retratos da situação das mulheres portuguesas da primeira metade do século XX. Sinto-me tentada a dizer: o único retrato autêntico, de corpo inteiro.” Como afirmou Maria Archer em Revisão e Conceitos Antiquados de 1952:“A minha obra literária tem sido norteada pelo princípio vital de rebater o conceito arcaico da inferioridade mental da mulher.” A leitura das suas obras convida ao fascínio da descoberta. Os seus livros sobre África são pontes para a reflexão mágica, para a beleza. A densidade da escrita enleia-nos tal floresta tropical. A sua escrita é o lugar dos contrários, é a conjugação da água e do fogo, a simbiose da terra e do mar. Hoje, aqui, em Lisboa, homenageamo-la pelas suas manifestações de cidadania, pela obra que nos deixou. Trinta anos após a sua morte. Mas nunca é tarde. Como diz o Prof. Eduardo Lourenço “um tempo é todos os tempos. Não antecipa só o futuro. Recicla todos os passados”. Maria Archer, de seu nome Maria Emília Archer Eyrolles Baltazar Moreira, nasce em Janeiro de 1899. Nos anos seguintes nascem os cinco irmãos, João, meu avô, Natália, Irene, Isabel e Eugénia. Em 1910, com 11 anos, parte com os pais e com 4 irmãos para a ilha de Moçambique, onde vive, até 1913. Maravilha-se com a paisagem que diariamente lhe inunda o imaginário e apelida-a de “ilha de coral branco”. Assim tiveram início as suas Idas e Voltas até ao continente africano. Em 1914, regressa a Portugal. A nova incursão por terras de África ocorre em 1916 acompanhando os pais, o irmão João, um ano mais novo, e a irmã Isabel. Desta vez ruma até à Guiné, “a verdadeira África maravilhosa”. Aqui vive durante dois anos. Em 1921, encontra-se em Faro e em 29 de Agosto desse ano casa civilmente com Alberto Teixeira Passos que tinha conhecido na ilha de Moçambique alguns anos antes e, religiosamente, em 31 do mesmo mês, em Almodôvar. Os primeiros cinco anos de vida do jovem casal são vividos em Ibo-Moçambique. Em 1926 regressam a Faro, indo depois para Vila Real de Trás-os-Montes, donde era procedente a família de Alberto Passos. O seu matrimónio dura 10 anos. Em 1932, já oficialmente separada, navega até Angola para viver com os pais. É em Angola, em 1935, que é editado o seu primeiro livro. Um livro de novelas e de contos intitulado, Três Mulheres, em parceria com Pinto Quartim. Ainda no curso do ano de 1935, já em Portugal, publica o romance África Selvagem – a sua estreia na literatura colonial portuguesa. Aqui vive, empenhada e militantemente, do seu trabalho de escrita para jornais e revistas, dos direitos de autor dos livros que publica e que, amiúde, tanta polémica provocam pela incomodidade ao pensamento dominante. Após regressar de Luanda, Maria Archer participa em várias conferências e palestras sobre o ultramar, na Sociedade de Geografia de Lisboa, aos microfones da Emissora Nacional, em liceus da capital, nomeadamente no Liceu Pedro Nunes, e em estabelecimentos militares. Aventura-se também na literatura para crianças com o livro Viagem à Roda de África, tendo ganho o prémio Maria Amália Vaz de Carvalho, em 1938. Os muitos anos vividos em África influenciam a sua escrita. A sua sensibilidade foi tocada pela paisagem primitiva dos trópicos e pela cor das terras do sol. Olhou para a natureza que a rodeava e pintou-a, feericamente, através da escrita. A árvore da escrita perpetuou-se na pujante criação enquanto o tronco se contorceu tentando alcançar o sol, a luz. A convivência de Maria Archer com os irmãos foi intermitente. A vida familiar decorria ora em Portugal, ora em África. Ainda assim, os laços de sangue são mais fortes. Esta união afectiva é retratada, por exemplo, no conto Eu vi o pelicano abrir o peito, de 1944 ou, no texto que escreveu para o catálogo da exposição da pintora Isabel Areosa, sua irmã, em 1945, ou ainda, na carta que endereçou à sua advogada em 1972 onde indicava ter enviado fotografias antigas para o sobrinho Luís Filipe o qual nunca recebeu a mencionada correspondência. Viveu a revolta de ver alguns dos seus livros apreendidos. Como afirmou Maria Teresa Horta: “Tudo o que Maria Archer dizia, era proibido.” Tendo Miguel Torga conhecido a mesma situação – o coarctar da liberdade de pensamento através da apreensão das obras - relembremos uma carta de Fevereiro de 1940 endereçada ao escritor aquando a apreensão do seu livro “Quarto Dia”: “V. decerto ignora que eu tive, faz agora um ano, um dos meus livros apreendido. Calculo que o ignore, como deve ignorar a minha existência e de livros meus. Digo-lho para que compreenda o motivo por que muito desejo ler o seu livro apreendido, motivo que agrava o interesse que a sua arte me desperta, sempre e sempre.” Seis dias após o envio desta carta outra será remetida a Torga, após a leitura do livro solicitado “Gostei muito do “Quarto Dia”, onde encontro o mesmo vigor que V. derramou nos anteriores, nesse ciclo fulgurante da “Criação do Mundo”. Confesso, porém, que “Os dois primeiros dias” me deram um deslumbramento maior. Deslumbramento é assim mesmo. Graças por me ter confiado o seu livro e pelo prazer que me deu ao lê-lo. Maria Archer” Em 1952 foi credenciada como jornalista por Jaime Carvalhão Duarte, durante o julgamento de Henrique Galvão. E em 1955 exila-se no Brasil como consequência última do seu trabalho como repórter do jornal República. Relembre-se a frase de Miguel Torga:”A Liberdade é uma penosa conquista da Solidão.” Apesar de ter sido repentina a saída do país, dois ilustres escritores, Ferreira de Castro e Aquilino, acompanham-na no momento da despedida, demonstrando a sua solidariedade e companheirismo naquele momento difícil. Laços estes que tinham sido firmados muitos anos antes e que se revisitam na carta de Ferreira de Castro, de 9 de Agosto de 1936, ao reafirmar: “Não é possível que depois de tantos anos de luta, a ideia duma Humanidade redimida num mundo justo possa ser sufocada!” No Brasil colabora nos Jornais O Estado de S. Paulo, Semana Portuguesa e Portugal Democrático e dá à estampa quatro livros: Terras onde se fala Português (1957), Os últimos Dias do Fascismo Português (1959), África sem Luz (1962) e Brasil, Fronteira da África (1963). Em 23 de Junho de 1973, cinco dias após ter recebido o pedido que Maria Archer expressou ao seu sobrinho Fernando Pádua, o então Primeiro - Ministro de Portugal, Professor Doutor Marcello Caetano, autoriza o seu regresso com estas palavras “… Sra. D. Maria Archer pode vir para Portugal quando quizer. Não será incomodada.” Em 26 de Abril de 1979 regressa, finalmente, a Portugal, doente e já com 80 anos, seis anos após ter obtido a anelada permissão e com um novo regime político. No regresso, vinte e quatro anos volvidos desde o dia em que deixou Portugal, e ao contactar com a família, dificilmente reconhece as irmãs e os sobrinhos. No entanto, uma das suas características mantém-se inalterada até ao fim: a vaidade feminina. Deixa-nos em 23 de Janeiro de 1982. Raul Rego, no artigo “Maria Archer”, para o Diário Popular, escrito dias após sua morte, curva-se sobre a actuação sócio-política da escritora em Portugal. O jornalista elucida como a sua postura anti-conformista a “afastou logo de muitos meios oficiais e de muitos salões de tertúlias, arrastando-a para os contactos com a oposição.” E prossegue: “Ela era uma mulher livre, escritora de garra, senhora de si e impondo-se pelo talento”, o que na altura, não agradava a muitos. Passados mais de 100 anos sobre o seu nascimento o que ficou, então? Ficaram os valores e os princípios. Ficaram os fins e os propósitos. Ficou o espírito de pioneirismo. É uma honra muito grande, para mim, como mulher e portuguesa, ser familiar de Maria Archer. Muito Obrigada.

DINA BOTELHO no Teatro da Trindade 29 março 2012

Começo por cumprimentar os meus companheiros de mesa e todos os que se quiseram juntar a nós nesta justa homenagem a Maria Archer, uma das nossas melhores escritoras da primeira metade do séc. XX. Aproveito também para agradecer o convite que me foi endereçado pela Associação Mulher Migrante, através da Dra Rita Gomes, a quem dou desde já os parabéns por ter organizado mais esta homenagem a Maria Archer desta vez em Lisboa, que se segue à da Maia, no final do ano passado, e à de Espinho no dia da Mulher. Maria Archer, escritora é o tema que eu tenho para desenvolver. Depois de aqui se ter falado da Maria Archer mulher, irei abordar a Maria Archer escritora que não está tão dissociado assim da sua posição enquanto mulher, como iremos ver. Eu tomei contacto com Maria Archer num alfarrabista de Lisboa relativamente perto do local onde hoje nos encontramos. Hoje, e ainda bem que assim é, temos já 3 livros de Maria Archer reeditados e que podem ser comprados nas livrarias Ela é apenas mulher, Nada lhe será perdoado e Memórias da linha de Cascais, dois deles (os 2 primeiros) graças à editora Parceria António Maria Pereira que apostou na sua republicação e portanto não é só através de alfarrabistas que podemos tomar contacto com a sua escrita, que considero ter sido um marco para a época em que viveu e é nesse sentido que sempre me deram testemunho quando dela falo com pessoas mais velhas. Maria Archer foi uma das poucas mulheres do seu tempo a ter como profissão a de jornalista e escritora. Ela publicou de 1920 a 1963, tendo havido dois anos em que publicou 4 livros por ano (1938 e 1950) e alguns dos seus livros chegaram mesmo à 3ª edição como por exemplo Há de Haver uma Lei e Aristocratas. Ela é Apenas Mulher é de 1944 e no mesmo ano saiu a 2ª edição tendo chegado à 3ª edição em 1952. Escreveu, pois, 31 livros de 1935 a 1963, 5 deles no Brasil (Terras Onde se Fala Português, África sem Luz, Brasil, Fronteira de África, Os últimos Dias do Fascismo Português e do último nada se sabe), cinco peças de teatro e três traduções. Mas não se julgue que era fácil ser uma mulher escritora na época. Este é outro reconhecido mérito de Maria Archer. Muitas mulheres da época, tais como Maria Lamas e Irene Lisboa, esconderam-se atrás de pseudónimos, quer femininos quer masculinos, para poderem escrever à vontade sem penalizarem a sua vida pessoal ou até mesmo para obterem maior imparcialidade por parte da crítica. Se agora temos muitas mulheres escritoras, no início do séc. XX, quando uma mulher queria escrever sobre outro tema, que não a vida doméstica ou a educação dos filhos, refugiava-se atrás de um pseudónimo. Maria Archer nunca se escondeu, nunca usou pseudónimos. Talvez esse mesmo facto tenha levado ao afastamento da família que, por vezes, não viu com bons olhos certas publicações suas. Também o seu divórcio (esteve casada apenas 10 anos durante os quais publicou apenas em periódicos) poderá ter tido alguma base na sua profissão apesar da causa pública do mesmo ter mais a ver com questões familiares (sevícias e injúrias graves) e menos profissionais. Maria Archer viveu numa época em que era suposto a mulher ser apenas boa filha, boa esposa e boa mãe. As únicas atividades permitidas à mulher eram a lida doméstica e a educação dos filhos. Maria Archer dizia que escrever era fugir ao longo silêncio a que a mulher da época estava votada. Até o acesso à cultura é negado à mulher na época, como Maria Archer retrata bem na personagem de Adriana (de Casa sem Pão) que tinha de se esconder para ler livros. Houve mesmo casos em que a crítica a um livro escrito com pseudónimo masculino era otimista e depois de se saber que havia sido escrito por uma mulher, o mesmo crítico dizia o contrário do que havia dito antes. João Gaspar Simões foi, dos críticos literários da época, o que melhor entendeu a luta da mulher escritora. Disse ele que «Em Portugal uma mulher que queira falar de si mesma com franqueza equivalente à de um homem quase pudico corre risco de enxovalho» Maria Archer mostrou as vozes profundas do seu ser sem nunca recorrer a pseudónimos o que fez dela única na sua época e no seu meio. Ela partia do real e era esse real que interessava aos seus leitores. Ela própria reconheceu que a literatura feminina da sua época não era criativa «pois a mulher encontrava-se subjugada pela estrutura social e familiar repressiva.» Talvez por ter sido tão direta e tão profunda nas suas obras tenha visto duas delas (Ida e volta duma caixa de cigarros (1938) e Casa sem pão (1947) apreendidas pela Censura. Mas passando agora à sua escrita em si. A preocupação/tema principal da sua obra era a situação da mulher e as dificuldades por ela sentidas. A vida da mulher, a sua relação com a família, com o trabalho e com os homens dominavam os seus romances e novelas. Mas se o tema dominante era o mesmo havia novidades em todas as suas obras. O estatuto social das mulheres que retratava era diferente, a mulher tanto era vítima como até brincava com os homens e por isso lia-se com empolgamento as suas obras. O seu conhecimento profundo do pensamento da mulher das várias classes sociais permitia-lhe falar com à vontade e realismo das suas vidas. Já João Gaspar Simões falava, em 1950, do seu «superior espírito de observação, penetrante análise social, sólida expressão literária, magistral equilíbrio no doseamento do imprevisto, pelo que não poderia deixar de ser considerada desde já um grande contista, um grande escritor» . Pela sua obra passam desde a jovem inocente que vem da província para a cidade para trabalhar na casa senhorial por intercessão de uma tia (Esmeralda de Ela é apenas mulher) que conhece toda a vida diferente da cidade e se apaixona por um mulherengo que lhe jura fazer por ela todos os sacrifícios mas que, quando ela lhe diz que pensa estar grávida, a abandona e ela vê-se desgraçada, de volta à terra do Alentejo onde até os pais a tratam mal por terem tomado conhecimento do seu namoro na cidade. De regresso à cidade, já a pensar ganhar a vida com um trabalho decente verifica que é difícil uma jovem arranjar trabalho em Lisboa sem ter de “ser simpática para os homens”. Decide afinal casar por dinheiro e depois acaba por trair o marido com o homem que, nos primeiros tempos, a abandonara. Também temos a mulher da alta sociedade que vive pelo dinheiro e pensa (Maria Benta de Aristocratas p.129) que «na vida tudo falha, menos o gosto de gastar dinheiro, de ter dinheiro, de fazer coisas que se podem fazer com dinheiro». É esta a personagem que considera que com 20 anos a jovem deve casar. Também a única personagem da comédia “Alfacinha” se preocupa com o facto de ter vinte anos e ainda não ter casado. Neste caso vemos uma jovem da burguesia que apesar de amar muito um jovem, como este ainda pensava tirar o curso o que pressupunha uma espera de 5 anos, ela decide jogar com vários outros mostrando toda a sua arte de sedução para ver qual decide casar com ela enquanto ainda «fazia vista». Também a vivência de uma vida de aparências e de preconceitos pode ser vista em Filosofia duma mulher moderna onde vemos uma mãe aristocrata (“Sujeição”) a convidar a filha e o marido, de quem esta está separada, para almoçarem em sua casa ao domingo. Também o drama da solteirona, cujo pai foi para África para casar as filhas que viam no casamento uma libertação, tendo na época, ao contrário das irmãs, decidido não casar, quando o quis fazer já era tarde de mais. Em Ida e volta duma caixa de cigarros temos a descrição pormenorizada de uma mulher que vive o prazer do sexo em sucessivos encontros até que vê o seu sonho destruído por uma mulher que reclama «os direitos do seu ventre fecundado» e depois vinga-se do homem que entretanto conhece e que por ela demonstra amor. Mas com nenhum dos dois fica. Conhecera o amor verdadeiro e o amor carnal, agora queria o amor integral. No romance Bato às Portas da Vida temos o problema da adolescência gerida pelas aparências, a necessidade de, independentemente de como se ganha o dinheiro, aparentar um estatuto superior ao que se poderia alcançar, mas que vem de família. Mais uma vez temos a jovem voluntariosa que rejeita vender-se por um estatuto mas que depois de ter o seu dinheiro fruto de árduo trabalho, acaba por casar entregando o seu dinheiro ao marido, que lho rouba quando se separam. A solidão é uma constante deste romance onde as decisões mais importantes são tomadas por ela sem qualquer apoio. Mas também temos, como disse no início, a vítima que ama e se vê traída ( a Adriana de Casa sem pão) mas que salva a casa quando o marido perde o emprego, fazendo traduções. Conhecemos o marido com dupla vida. O marido que reconhece a mulher como santa mas a quem não deseja. O que quer a mulher que todos desejariam ter e por isso casa com ela e nem imaginaria separar-se dela. Em Nada lhe será perdoado conhecemos o drama de uma mulher enganada até aos 41 anos pela família do marido e por ele. Vê-se obrigada a refazer a sua vida, não conseguindo permanecer muito tempo nos vários empregos por ter sido educada «para menina rica, para ser servida, para a inutilidade.» Maria Archer queixou-se de como as mulheres escritoras têm de trabalhar «Trabalhamos sem poder sair do círculo de arame farpado com que o clã e a sociedade nos limitam a criação» (in “Revisão de conceitos Antiquados”, Ler, out. 1952) mas parece que ela conseguiu sair desse círculo mostrando e descrevendo a vida social da época como nenhuma outra. Também como contista sobressai. É João Gaspar Simões (em Filosofia de uma mulher moderna) que diz que Maria Archer em alguns contos de Há-de Haver uma Lei nos faz pensar em Eça de Queirós e Singularidades de uma rapariga loira. Diz mesmo que ela se aparenta a Camilo. Diz-nos o mesmo ensaísta que se existir um tema nos seus contos este é o tema social: a rebelião da mulher contra as normas sociais sacrificadoras da sua sagrada independência». O conto de Maria Archer é o conto de fundo social, o conto de costumes.» Ela é considerada por ele «um dos nossos primeiros contistas contemporâneos, um dos nossos mais fortes temperamentos de escritor». Termino apresentando duas citações da própria Maria Archer seguidas de um desafio: «Saibam quantos fazem coro no desprestígio da obra literária das mulheres que os nossos livros são momentos heróicos. Custam-nos coragem, e angústias, que os homens, para igual feito, desconhecem de todo» (in “Revisão de Conceitos Antiquados” Out. 1952) «Eu precisarei de morrer para que a minha obra seja avaliada na altura que eu lhe atribuí quando a escrevi – como um documento histórico duma época e da situação da mulher. » (1973) Lanço então o desafio – Não deixemos que a sua obra morra, pois muito ainda há a fazer, nomeadamente estudos sobre os seus cadernos coloniais e estudos sobre as suas peças de teatro. Devemos enaltecer e reconhecer a sua luta pela dignificação da condição da mulher através da apresentação da realidade que a mulher da sua época vivia. A vida da mulher de meados do séc. XX não está bem conhecida – os jovens de hoje não a conhecem e através da obra de Maria Archer poderão conhecê-la. É também com satisfação que vejo que investigadores de outros países se interessam por esta nossa escritora e escrevem artigos e teses sobre ela. Aproveito para mencionar a dra Elizabeth, aqui ao meu lado, da Universidade de Mato-Grosso que se entusiasmou com a minha tese de mestrado sobre Maria Archer e sobre ela escreveu a sua tese de doutoramento tendo por base a sua vertente mais jornalística. Bem hajam todos por nos fazerem reviver a vida da mulher do início do séc. XX nas suas diversas vertentes.

MANUELA AGUIAR no Teatro da Trindade ANDAMOS NA SAUDADE DE MARIA ARCHER (Vida e obra de MA - publicação da AMM 2012

Para uma associação de estudos sobre as mulheres da emigração, como é a nossa, Maria Archer é certamente uma personalidade inspiradora, que convida à pesquisa, à reflexão e ao diálogo. Começámos por a lembrar no Encontro Mundial de Mulheres Portuguesas da Diáspora, em Novembro de 2011, justamente porque nesse congresso pretendemos partir da história da emigração no feminino, traçando, por um lado, as linhas de evolução de mais de um século de migrações portuguesas, com participação crescente de mulheres, e, por outro, dando-lhes visibilidade, não só mas também, numa área em que podemos considerar que têm estado, pelo menos, tão presentes como os homens: o domínio da Cultura, do ensino da Língua, das Letras e das Artes. Por ambos os caminhos, os da História e os da Cultura, encontrámos Maria Archer. Ela voltou, seguidamente, ser figura de cartaz na comemoração do Dia Internacional da Mulher. Uma "entrevista imaginária" com a grande escritora, protagonizada por jovens das Escolas de Espinho, deu a esse evento simples e didáctico um toque original e comovente... E agora, aqui, em Lisboa, no Teatro Nacional da Trindade, partilhamos de novo, a força do seu pensamento e ideais, na evocação da sua vida e obra tão bem conseguida em sucessivas intervenções – neste espaço esplêndido, no salão nobre onde ela própria esteve inúmeras vezes – contando com muitas das pessoas que a conheceram bem, e com a presença e a palavra, tão honrosas para nós e tão prestigiantes para a sua memória, da Dr.ª Maria Barroso e do Presidente Mário Soares, símbolos da luta vitoriosa pelo Portugal em liberdade, em democracia, que ela sonhou. Razões não nos faltam para justificar o empenhamento cívico com que, assim, fazemos de Maria Archer uma companheira de jornadas sobre as temáticas de género, no universo das migrações. Ela foi, de facto, uma grande Portuguesa da Diáspora. Sê-lo-ia, em qualquer caso, como intelectual, jornalista, romancista, mas foi - o, igualmente, como verdadeira precursora na pesquisa e divulgação de usos e costumes dos povos com os quais se viu em contacto. Primeiro em África, muito jovem, a acompanhar os Pais por terras do” Ultramar", depois, já sexagenária, no exílio brasileiro, passou largos anos em cinco países lusófonos, dispersos em três continentes, sempre atenta ao que acontecia em seu redor, com uma inteira compreensão das pessoas, dos ambientes, dos meios sociais, que soube traduzir em dezenas de escritos de incomensurável valor literário e de enorme interesse etnológico, sociológico e político.... Seria motivo bastante para partirmos à descoberta desse legado multifacetado e vasto, que, num estado de quase hibernação, guarda experiências e segredos de tantas gentes e vivências. De um amor por África, de um enraizamento no mundo lusófono, que o nosso anfitrião Dr. Vítor Ramalho tão bem soube focar. Mas há mais! Maria Archer é uma daquelas figuras do passado, que é intemporal, por saber captar as constantes da natureza humana - sem deixar de ser, também, testemunha, memória crítica de um muito concreto tempo português, opressivo e cinzento, pautado pelo anacronismo das ideias e das regras de jogo social e político, que desvenda e põe em causa, com lucidez e fulgor - e sem contemplações. Ninguém, como ela, retrata o quotidiano desse Portugal estagnado e arcaico, avesso a qualquer forma de progresso e de modernidade, em que os mais fracos, os mais pobres não têm um horizonte de esperança, e as mulheres, em particular, são dominadas pela força das leis, pelo cerco das mentalidades, pela censura dos costumes, pelo confinamento da educação - tendo por pano de fundo as normas impostas para o relacionamento de sexos, com a entronização rígida dos papéis de género dentro da família, e as consequentes desigualdades, e preconceitos sociais, o doloroso e duradouro impasse de uma sociedade fechada ao curso da História, que acontecia na Europa e por esse mundo fora. Maria Archer vai dar vida às portuguesas suas contemporâneas, revelando-as tal como elas são, com um realismo, que é, sem dúvida, uma busca uma evidência da verdade, doa a quem doer e para que se saiba... então e no futuro. Nos seus "apontamentos de romancista" (em "Eu e elas", escrevendo sobre si e sobre os outros, com um fino sentido de humor e toda a "joie de vivre" )) confidencia-nos :"O meu trabalho neste livro foi quase o de um artista plástico. Moldei a obra sobre o modelo vivo". Fica-nos a impressão de que essa foi uma metodologia que usou largamente… A mais feminista das escritoras portuguesas, é, contrariando estereótipos universais (embora não o que podemos considerar a melhor "tradição nacional"), uma "feminista muito feminina", que ousou ser um ícone de beleza, ter uma carreira no jornalismo e nas Letras, fazendo, em simultâneo, combate pela dignidade e pela afirmação das capacidades intelectuais e profissionais negadas à mulher comum. .Ousou fazer um nome no mundo essencialmente masculino da cultura portuguesa. Ousou ser Maria Archer, sem pseudónimos... Na verdade, por tudo isto, julgo que podemos dizer que ela é mais do nosso tempo do que do seu tempo - aliás, uma afirmação que se deve generalizar às mais notáveis feministas do princípio do século XX, as que dão rosto à exposição da Câmara Municipal de Espinho, há pouco, inaugurada aqui, nas salas e corredores do Teatro da Trindade. Maria Emília era, então, demasiado jovem para poder participar nos movimentos revolucionários, em que estiveram envolvidas a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, mas iria ser uma das poucas que, no período de declínio desses movimentos (e de desaparecimento de uma geração ímpar), continuou, a seu jeito, solitariamente, uma lide incessante contra o obscurantismo, que condenava a metade feminina de Portugal à subserviência, ao enclausuramento doméstico e à incultura. Foi uma inconformista, consciente das discriminações e das injustiças, em geral, e, em especial, das que condicionavam o sexo feminino, numa sociedade retrógrada e "fundamentalista", como dizemos hoje daquelas em que o Estado impõe a regressão às doutrinas e práticas de um patriarcado ancestral, contra o qual, se revoltou, naturalmente... A escrita, servida pela inteligência, pela capacidade de observação e expressividade, foi para ela uma arma de combate político. Como dizia Artur Portela, "a sua pena parece por vezes uma metralhadora de fogo rasante". É um combate em que a experiência de vida e a sensibilidade artística se fundem - norteadas por um declarado propósito de valorização do ser feminino e da sociedade como um todo. É já uma Mulher livre num país ainda sem liberdade - coragem que lhe custou o preço de um tão longo exílio ... Maria Archer é uma grande escritora (ou um grande escritor, como alguns preferem precisar, alargando o campo das comparações possíveis). E pode ser lida apenas como tal. Mas permite - nos também diversas outras leituras - para além da literária, a sociológica, a etnológica, a feminista... Ninguém, como ela , escrutinou e descreveu o pequeno mundo da sociedade portuguesa da primeira metade do século XX, os pobres e os ricos, as famílias decadentes ou ascendentes, aristocráticas, burguesas, o povo" . Mulheres e homens imersos na nebulosa de preconceitos de género e de classe, de vaidades, de ambições, de prepotências e temores... "Aurea mediocritas", brandos costumes implacáveis... o mundo de contradições do Estado velho, que se auto-proclamava "Estado Novo". Gostaria de realçar a"leitura feminista, porque ninguém conseguiu, como ela, soube corroer essa imagem da "fada do lar", laboriosamente construída sobre os conceitos falsos da harmonia de desiguais (em que, noutro plano, se baseava a ideologia do regime “corporativo") e da brandura de costumes - assente, porém, no autoritarismo e subjugação ao "pater familias" no pequeno círculo do lar, ou ao ditador paternalista no círculo alargado ao País. Maria Archer é uma retratista magistral da mulher e da sua circunstância... O rigor da narrativa, a densidade das personagens, a qualidade literária, só podiam agravar, aos olhos do regime, a força subversiva da denúncia. Os poderes constituídos não gostaram desses retratos de época, como não gostavam da sua Autora. Primeiro, tentaram desqualificá-la, desvalorizando-a. Sintomática a opinião de um homem do regime, Franco Nogueira, que em contra-corrente, num texto com laivos misóginos, a apresenta como uma mulher a falar de coisa ligeiras e desinteressantes (por tal entendendo a realidade do destino das mulheres, coisa para ele tão sem importância....). Sintomático também que a crítica seja divulgada pela própria editora da romancista, a par de tantas outras, de sentido oposto. Não tendo conseguido os seus intentos, o Poder passou à acção: livros apreendidos, jornais onde trabalhava ameaçados de encerramento... Maria Archer viu-se forçada a partir para o Brasil - uma última aventura de expatriação, de onde só retornaria, doente e fragilizada, para morrer em Lisboa. Porém, o desterro não seria pena bastante. Teresa Horta, no prefácio da reedição de "Ela era apenas mulher afirma que Maria Archer foi "deliberadamente apagada da História". Ser emigrante é já factor de esquecimento, regra geral inevitável, na memória da Pátria. Mas o seu caso foi mais grave, deliberado, doloso - ainda que, do nosso ponto de vista, não esteja definitivamente encerrado. É ainda bem possível combater esse acto persecutório, gizado e consumado há décadas. Como? Restituindo à obra de Maria Archer o espaço que lhe é devido no mundo eterno da cultura portuguesa, revisitando a Mulher de Letras, através dos seus escritos. Em momentos mágicos, percorramos com Maria Archer as páginas fulgurantes dos seus contos, romances e crónicas, desocultando o passado, lançando luz sobre a realidade insuficientemente analisada e realçada da sociedade portuguesa de 40 e 50! A elegância do seu estilo tempera o cru realismo, o fundo pesado e dramático de qualquer narrativa e torna sempre um prazer a sua companhia nas incursões pelo universo bafiento e confinado em que se cruzaram e confrontaram as portuguesas e os portugueses durante meio século – um universo no qual as personagens femininas raras vezes cumpriram as suas virtualidades e esperanças (mesmo que modestas), e os enredos quase nunca têm um final feliz - ou justo... Elegância é uma palavra que quadra com Maria Archer, que a caracteriza na maneira como pensou, como escreveu, como se vestiu e apresentou em sociedade, como atravessou uma rua de Lisboa ou de São Paulo, como atravessou uma vida inteira, até ao fim... Fim não será a palavra mais apropriada... Estamos aqui justamente unidos pelo projecto de lhe assegurar uma segunda vida, objectivo perfeitamente ao nosso alcance, porque "existir não é pensar, é ser lembrado", como disse Pascoaes. Esta não é, pois, a primeira nem será a nossa última reunião para falar sobre Maria Archer, o seu exílio, o seu retorno - o seu legado ou a sua pessoa - qual deles o mais interessante? A pessoa é certamente tão fascinante como a escritora. E mais desconhecida. Mas só assim continuará por omissão nossa, porque ela está lá, para sempre jovem e vibrante, nas páginas que nos deixou impressas. Dizia a Mariana desse romance eminentemente "feminista" que é "Bato às portas da vida": "Ando na saudade de mim, mesmo perdida no tempo". E nós andamos na saudade de Maria Archer, perdida mas reencontrada no nosso tempo, que queremos seja o do início do correr interminável do seu tempo futuro..

MARIA ARCHER O Encontro com uma escritora viajante . ELISABETH BATTISTA (AMM Publicações)

ELISABETH BATTISTA 1 Maria Archer – O encontro com uma escritora viajante Com Maria Archer gasto horas de trabalho e de lazer ficando-me sempre a impressão de haver passado momentos em boa companhia. Conheci Maria Archer na travessia para a outra margem do Atlântico. Sim, depois que li Ela é Apenas Mulher (1944), no contato com Esmeralda, personagem principal do referido romance, foi encanto à primeira leitura. Naquela oportunidade, debrucei-me à janela e fitei, junto com ela, o majestoso Tejo, no seu desembarque em Cacilhas, frente à Lisboa. Quando isto se deu? Parece que foi ontem, mas remonta a 2003, o tempo em que a Universidade de Coimbra sediou um evento internacional, no qual, em companhia de uma equipe de investigadores do Brasil, participei com apresentação de trabalhos. O grupo2 de estudiosos da Universidade de São Paulo – USP, dentre os quais a minha orientadora do Doutorado, a Professora. Dra. Benilde Justo Lacorte Caniato (in memorian), e a Professora. Dra. Tania Macêdo, tomou parte ativa no evento que congraçou investigadores de diversas áreas e vários países, visto se tratar de um Congresso Internacional Luso Afro Brasileiro de Ciências Sociais. Entretanto, de passagem por Lisboa, a Professora Benilde adquiriu a obra Ela é Apenas Mulher, de Maria Archer, reeditada em 2001 pela Editora Parceria A. M. Pereira, e recomendou-me a sua leitura. Esta foi motivação suficiente para que despertasse em mim o desejo de conhecer o conjunto da produção criativa da autora e saber mais sobre a sua biografia. E tendo o meu Projeto de Doutoramento a finalidade de contribuir para o estudo de autores da literatura de Língua Portuguesa a partir do século XX ainda pouco explorados nas relações literárias Brasil, Portugal e África, a obra de Maria Archer logo me pareceu ser um corpus em Foi assim que ao ter elegido como objetivo dar visibilidade à diversidade cultural gerada por essas relações, me lancei na busca de documentos que fornecessem um testemunho da gênese da obra e da vida de Maria Archer, inclusive visitando alfarrabistas e adquirindo todos os títulos disponíveis. Nessas andanças conheci a escritora Maria Albertina Mitelo. À medida que sobre os materiais me debruçava, deparei-me com um fato curioso que corroborou ainda mais a minha reflexão: O fato de tendo ela nascido no limiar do século XX, e tendo contatado direta ou indiretamente com as correntes de pensamento que influenciaram, ou afetaram de forma intensa o ambiente político-cultural português até meados dos anos cinquenta do século passado, e ser, não obstante, pouco estudada pela historiografia literária da Literatura Portuguesa. Buscando entre os lusitanos notícias sobre a autora e sua obra, contatei a amiga e poetisa Maria Albertina Mitelo3, a qual se referiu a uma recente entrevista do Professor Fernando de Pádua4 à televisão portuguesa, em que ele, na ocasião teria nomeado a escritora Maria Archer como sua tia, e dava a conhecer a última reedição da obra Ela é Apenas Mulher. De fato, o dado fornecido pela Maria Albertina Mitelo foi fundamental para que eu acessasse um outro estágio da investigação. Isto porque, ao tomar conhecimento dos objetivos que o mesmo perseguia, o Professor Fernando de Pádua, com a generosidade que lhe é peculiar, acolheu-me muito prontamente e concedeu uma entrevista, colocando-me em contato com pessoas simpatizantes à causa. Na oportunidade, citou existência da Dissertação de Mestrado5 da Professora Dina Botelho, trabalho que mais tarde fez chegar às minhas mãos. Gesto que por si só fala da confiança depositada, motivo pelo qual sou grata. Trata-se de uma investigação que resultou num primoroso ensaio sobre a obra e a vida de Maria Archer que veio a servir-me de relevante base e fonte de consulta. Encontrei apoio também na pessoa da Dra. Olga Archer Moreira, sobrinha-neta de Maria Archer, que amavelmente me forneceu duas fotografias para ilustração daquela que em 2007 viria a ser a minha futura tese de doutoramento. De regresso ao Brasil, o percurso investigativo mostrou-se pleno de gratas revelações. A maior delas foi constatar que, em seu longo exílio em terras brasileiras (1955 a 1982), a escritora havia lançado quatro obras e dezenas de crônicas jornalísticas. Note-se que talvez ela tenha sido a primeira autora a ter a noção exata da escassa circulação literária entre a África e o Brasil, o fato logo posto em evidência no seu ensaio jornalístico sobre o tema, “A Censura à Imprensa e ao Livro” (1956), publicado no periódico Portugal Democrático. Aí, reivindica o direito à circulação literária entre os países de Língua Portuguesa. Sete anos mais tarde, Maria Archer, no prefácio de sua obra África Sem Luz (1962:5-6) é distinguida pelo reconhecimento dos editores em relação ao fato acima. A propósito colhi da Nota explicativa do ensaísta e crítico literário Paulo Dantas6, na referida obra, publicada no Brasil, na coleção Círculo do Livro, o seguinte comentário: (…) Sente-se que a escritora ama o seu mundo africano, compreende a sua gente, capta as suas ingenuidades, desenhando com segurança a paisagem geográfica e social do Continente Negro, no qual tem vivido e participado, através de viagens, pesquisas, passeios etc. (…) Longe de ser uma “mera turista africana”, Maria Archer, já com uma dezena de livros escritos e publicados sobre a África, é uma das vozes esclarecidas do continente. (…) Viveu e habitou na África. Cresceu no seu chão. Formou-se no seu clima. Física e psiquicamente integrada numa grande e total intimidade ecológica, a escritora tornou-se autoridade no assunto, daí o domínio com que aborda a África em todas as suas coordenadas geográficas e latitudes morais, oferecendo-nos valores de comando e interpretação.(...) A coletânea de narrativas que integram África Sem Luz apelam à imaginação e evocam a tradição oral – elemento fundamental da cultura desses povos africanos, com quem a autora travou contato. O jogo narrativo sobrepõe-se a dimensão documental. Em suas páginas identificam-seelementos que apontam para o universo plural e diverso que caracteriza as linguagens que a autora buscou exprimir, na sua relação literária e cultural com o continente africano e com o seu tempo. Acresce ter sido uma excelente jornalista, razoável romancista e ensaísta de certo interesse. Foi sobretudo cronista, autora de vários romances e várias dezenas de contos, como “A Sedução do Mistério” (1944) e “A Japoneza” (1956). A sua escrita tem fascinante clareza. Há uma capacidade de fundir o olhar observador e atento à astúcia de exímia prosadora, elegância no verbo e expressão impactante. Seus textos suportam uma leitura antropológica, e aí parece ter sido precursora. A melhor fase de sua produção criativa começou na idade madura, ao atingir os 40 anos, mas desde o começo já eram pessoais o seu estilo e visão de mundo. O trato da escrita, no processo literário, em grande parte foi dedicado ao forte sentimento de identidade e divulgação da cultura dos países africanos que se comunicam em Língua Portuguesa. A cultura portuguesa deve-lhe não apenas as contribuições da escrita perspicaz, mas sobretudo a abordagem lúcida e corajosa de questões que abrangiam a vida social e suas contradições que ela teve a ousadia de levantar sendo este um dos seus traços mais marcantes. A linguagem de Maria Archer não tem banalidades, expõe os conflitos morais e sociais do seu tempo por meio da representação artística. O romance Ela é Apenas Mulher (1944), por si só, constitui- se emblema significativo e, não menos importante, ao tempo de sua permanência no Brasil o seu contributo, ao produzir inúmeros artigos nos jornais O Estado de São Paulo, Semana Portuguesa e Portugal Democrático que deram força à resistência ao regime vigente em Portugal. Todo o trabalho de investigação culminou na tese de doutoramento intitulada Entre a Literatura e a Imprensa: Percursos de Maria Archer no Brasil defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP/Campus da capital, em 2007, e que teve como objetivos ressaltar as experiências e a contribuição literária desta escritora para a imprensa de Língua Portuguesa para a recuperação e a organização da produção criativa da autora, e sobre a sua obra laborada no período de exílio no Brasil (1955 a 1963). As preocupações, naquele momento, recaíram principalmente na caracterização e avaliação de sua prática, no contexto dos anos 50-60, período rico e fértil em transformações, tanto no Brasil quanto em Portugal e de intensas lutas pela independência na África lusófana. Este depoimento, que muito me apraz produzir é também um dos produtos do Encontro Mundial de Mulheres Portuguesas da Diáspora7, dedicado em homenagem à memória das Marias: Archer e Lamas. O evento e a publicação que integrará este e outros textos traduzem-se na atualização da memória e vem, até certo ponto, colmatar uma falha que pesa sobre o nome da autora, e não merece ser deixada ao abandono dos investigadores, tanto mais que é amplamente reconhecida pelo público-leitor. A literatura de Maria Archer8 singrou as águas do Índico, do Atlântico e aportou no Brasil. Pode-se dizer que, assim como a força unificadora da língua de expressão portuguesa, a sua produção criativa provou ter vocação marítima, pois transpôs os hostis entraves das fronteirasgeográficas, e passou a ser abertura para o estreitamento dos laços identitários entre os países 1 Estágio Pós -Doutoral/ Universidaade de Lisboa -Bolsa de Investigação/ CAPES na Faculdade de Letras FLUL/CEC Portugal. Docente no Departamento de Letras do Campus Universitário de Cáceres, e no Programa de Pós-graduação em Estudos Literários – PPGEL, da Universidade do Estado de Mato Grosso -UNEMAT. Centro de Estudos de Culturas e Literaturas de Língua Portuguesa – CELP .do em Estudos Anglo-portugueses, apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sob a orientação da Professora. Dra. Maria Leonor Carvalhão Buescu. Lisboa, 1994, 182p. 3 Maria Albertina Mitelo é autora de quatro obras de poemas: Entre Pássaros e o Mar (2002), O Corpo das Aves (2004), Uma Leve Matéria (2007) e Matéria Brevíssima (2009). Edições Afrontamento. 4 Professor Doutor Fernando Manuel Archer Moreira Paraíso de Pádua, Fundador do Instituto Nacional de Cardiologia Preventiva – INCP. Autor de O Livro do Coração, (?) e Conversas no Meu Consultório (2011). 5 BOTELHO, Dina Maria dos Santos. “Ela é Apenas Mulher” Maria Archer Obra e Autora. Dissertação de Mestra 6 Paulo Dantas, ensaísta, crítico literário, romancista, jornalista, vice-presidente da Academia de Letras de Campos do Jordão, presidente da Academia Brasileira de Literatura Infanto-Juvenil. Detentor dos prêmios Coelho Neto e Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras. 7 Realizado pela Mulher Migrante - Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade, com apoio da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, na Maia em novembro de 2011. 8 A autora, além da contribuição à imprensa periódica publicou no Brasil: Terras Onde se Fala Português (1957), Os Últimos Dias do Fascismo Português (1959), África Sem Luz (1962), Brasil, Fronteira da África (1963).

A MODERNIDADE DE MARIA ARCHER MM Aguiar - na apresentação do livro de Elisabeth Battista

A MODERNIDADE DE MARIA ARCHER Maria Manuela Aguiar O "Círculo Maria Archer" participa, juntamente com a AMM, numa pri...